domingo, 31 de janeiro de 2016

SÉTIMA ARTE EM DESTAQUE: CAROL




POR GABRIEL JOSÉ
Estudante de Cinema da UESB

“Carol” é, originalmente, um romance escrito por Patrícia Highsmith, que conta a história de duas mulheres  que, em tempos onde tal relação ainda era considerada um “ultraje”, se apaixonam e desenvolvem toda uma vida juntas, paralela àquelas que levavam de maneira “oficial” às vistas da sociedade. A adaptação cinematográfica atual, de mesmo nome da obra literária que lhe deu origem, é escrita por Phyllis Nagy e dirigida por Todd Haynes, com Cate Blanchett (Carol) e Rooney Mara (Therese) nos papéis principais.


A linha que separa um romance de sucesso de um dramalhão clichê é bastante tênue: sentimentos mal desenvolvidos, conflitos forçados, personagens caricatos, diálogos mal trabalhados; qualquer escorregão nesse sentido pode por toda a trama por água abaixo. No caso, os realizadores escapam de todas essas eventuais armadilhas com uma elegância absurda, uma vez que, mesmo optando por uma abordagem clássica, onde gestos, olhares e toques importam tanto ou mais do que o que é falado, o tiro é certeiro e, com as composições fantásticas de Blanchett e Mara, o resultado final extremamente eficiente. Ambientado em Nova York na década de 50,é realmente tocante  e lamentável   ver o verdadeiro amor entre duas pessoas ser tão condenado por todos.

Os realizadores são inteligentes o suficiente para não alterar a essência do sentimento entre ambas por conta disso, de modo a deixar claro que, quando se trata de afeto e paixão, podíamos muito bem acompanhar a relação entre dois homens, entre um homem e uma mulher ou, no caso, entre duas mulheres: não faz diferença.


Por outro lado, não são só elementos ruins que vêm no pacote dos anos 50; todo o charme e requinte desse período resultam em figurinos absolutamente espetaculares, além de uma direção de arte que recria com perfeição as minúcias daquele tempo. Cate Blanchett poucas vezes esteve tão imponente e esbelta em tela (o que, por si, já quer dizer muita coisa), e as semelhanças físicas entre Rooney Mara e Audrey Hepburn (especialmente considerando “Sabrina”) são simplesmente assustadoras. O melhor disso tudo é que tais composições indicam não só a personalidade de cada uma, mas também exaltam as características que as tornam apaixonantes aos olhos umas das outras: Carol com sua sabedoria madura, postura magnética, segura de si e do que quer, e Therese com sua beleza jovial encantadora, graciosa, ainda incerta e perdida entre o que sente verdadeiramente e o que pretende mostrar aos outros de si mesma. Não à toa, o filme está indicado ao próximo Oscar em tal categoria.

Em que pese o ritmo um tanto quanto irregular, “Carol” é daqueles romances atemporais e universais, acertando em cheio na abordagem escolhida e na execução desta. Na presença de tantas virtudes artísticas e camadas de significado, não seria um pouco injusto resumi-las ao fato do casal principal ser homossexual? Não faz diferença…

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